domingo, 29 de março de 2009

O Pássaro Azul

"Recentemente, estava eu andando pelos corredores do Mercado Central, quando me deparei, numa loja de quinquilharias, com um brinquedo consistente num pássaro azul de plástico, que emitia um irritante trinado metálico e fazia movimentos rígidos com as asas, a cada vez que alguém batia palmas ou fazia algazarra perto dele. O desenxabido pássaro, sem a algazarra e as palmas alheias, não passava de algo estático e frio. Pois bem, eu, meu filho e alguns amigos estivemos no Mineirão no jogo entre América e Cruzeiro, para torcermos pela derrota do time azul, que beneficiaria o nosso Galo. Nós tomamos assento próximo da batucada da torcida americana e eu pude perceber que outros atleticanos estavam ali com o mesmo intuito. Jamais tinha vivido a experiência de estar numa torcida alheia torcendo contra o Cruzeiro. Foi algo único e profundamente revelador, pois pude perceber que os torcedores (ou melhor, os simpatizantes) do Cruzeiro funcionam tal e qual o pássaro azul do Mercado Central. A "torcida" do Cruzeiro permaneceu os 90 minutos do jogo absolutamente estática e muda. No lado cruzeirense o que se viu foi um aglomerado de pessoas tão "calorosas" quanto um iceberg. Ou seja, a "torcida" cruzeirense só existe em função da fanática e apaixonada torcida atleticana. Somente nos jogos contra o Galo é que os glaciais torcedores do Cruzeiro se manifestam, já que a vibração da torcida alvinegra funciona como as palmas que ativam o insosso pássaro azul de plástico. Nós, atleticanos, somos os espelhos nos quais os cruzeirenses se refletem. Se não estamos ocupando as gerais e as arquibancadas do estádio, os cruzeirenses não se sentem na obrigação de torcer. A impressão que se tem é que os cruzeirenses só torcem na presença dos atleticanos para não fazer feio. Pois se dependesse deles próprios, com suas camisas cheirando a naftalina, nem torceriam.
Quando nós, atleticanos, estamos ausentes, o que se vê é uma "animação" de agência funerária no lado azul glacial do Mineirão. Eu afirmo, sem medo de errar, que os cruzeirenses têm com os atleticanos uma relação de amor e ódio, pois nós somos aquilo que eles querem ser e nunca serão. A relação do atleticano com o Galo é absolutamente passional, beirando o fervor religioso. Entretanto, a relação do cruzeirense com o seu time é absolutamente burocrática e monótona. Ao contrário de nós, atleticanos, que temos uma fidelidade matrimonial ao nosso time, já que estamos com o Galo para o que der e viver, "na alegria ou na dor". "

 

Túllio M. S. Carvalho