"Recentemente, estava eu andando pelos corredores do Mercado Central, quando me deparei, numa loja de quinquilharias, com um brinquedo consistente num pássaro azul de plástico, que emitia um irritante trinado metálico e fazia movimentos rígidos com as asas, a cada vez que alguém batia palmas ou fazia algazarra perto dele. O desenxabido pássaro, sem a algazarra e as palmas alheias, não passava de algo estático e frio. Pois bem, eu, meu filho e alguns amigos estivemos no Mineirão no jogo entre América e Cruzeiro, para torcermos pela derrota do time azul, que beneficiaria o nosso Galo. Nós tomamos assento próximo da batucada da torcida americana e eu pude perceber que outros atleticanos estavam ali com o mesmo intuito. Jamais tinha vivido a experiência de estar numa torcida alheia torcendo contra o Cruzeiro. Foi algo único e profundamente revelador, pois pude perceber que os torcedores (ou melhor, os simpatizantes) do Cruzeiro funcionam tal e qual o pássaro azul do Mercado Central. A "torcida" do Cruzeiro permaneceu os 90 minutos do jogo absolutamente estática e muda. No lado cruzeirense o que se viu foi um aglomerado de pessoas tão "calorosas" quanto um iceberg. Ou seja, a "torcida" cruzeirense só existe em função da fanática e apaixonada torcida atleticana. Somente nos jogos contra o Galo é que os glaciais torcedores do Cruzeiro se manifestam, já que a vibração da torcida alvinegra funciona como as palmas que ativam o insosso pássaro azul de plástico. Nós, atleticanos, somos os espelhos nos quais os cruzeirenses se refletem. Se não estamos ocupando as gerais e as arquibancadas do estádio, os cruzeirenses não se sentem na obrigação de torcer. A impressão que se tem é que os cruzeirenses só torcem na presença dos atleticanos para não fazer feio. Pois se dependesse deles próprios, com suas camisas cheirando a naftalina, nem torceriam.
Quando nós, atleticanos, estamos ausentes, o que se vê é uma "animação" de agência funerária no lado azul glacial do Mineirão. Eu afirmo, sem medo de errar, que os cruzeirenses têm com os atleticanos uma relação de amor e ódio, pois nós somos aquilo que eles querem ser e nunca serão. A relação do atleticano com o Galo é absolutamente passional, beirando o fervor religioso. Entretanto, a relação do cruzeirense com o seu time é absolutamente burocrática e monótona. Ao contrário de nós, atleticanos, que temos uma fidelidade matrimonial ao nosso time, já que estamos com o Galo para o que der e viver, "na alegria ou na dor". "
domingo, 29 de março de 2009
O Pássaro Azul
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